Comemora-se hoje, 5 de agosto de 2026, os 83 anos da Greve do Calçado de 1943, em S. João da Madeira.
Na década de 1940, São João da Madeira já se afirmava como um dos principais centros da indústria do calçado portuguesa. Milhares de trabalhadores e trabalhadoras, asseguravam a produção de um setor em crescimento, mas enfrentavam salários insuficientes, longas jornadas de trabalho e condições laborais miseráveis. A inflação provocada pela II Guerra Mundial (1939-1945) reduziu drasticamente o poder de compra das famílias, tornando cada vez mais difícil garantir o acesso a bens essenciais.
Perante esta realidade, grupos de trabalhadores organizaram-se para apresentar aos industriais um conjunto de reivindicações salariais. Embora algumas empresas tenham demonstrado abertura para negociar, a maioria recusou aceitar aumentos que compensassem a perda de rendimentos. A falta de acordo conduziu à paralisação do trabalho na manhã de 5 de agosto de 1943, um dos acontecimentos mais significativos da história social e industrial de São João da Madeira e um dos mais importantes movimentos operários registados em Portugal durante o Estado Novo.
Ao longo da tarde, a Greve transformou-se numa grande manifestação popular, à qual se juntaram trabalhadores de localidades vizinhas, como Cucujães, São Roque, Nogueira do Cravo, Milheirós de Poiares, Arrifana e Escapães.
A manifestação concentrou milhares de pessoas no centro da vila, tornando-se uma expressão pública do descontentamento social. A Guarda Nacional Republicana interveio para dispersar os manifestantes, reprimindo violentamente os manifestantes e detendo diversos trabalhadores, posteriormente entregues à então Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE).
Embora a Greve não tenha produzido resultados imediatos, marcou profundamente a história do movimento operário português, demonstrando a capacidade de organização dos trabalhadores da indústria do calçado e tornando-se um símbolo da resistência à repressão política e da luta por melhores condições de trabalho e de vida.
A Greve do Calçado de 1943 consolidou-se como um dos episódios mais relevantes da memória coletiva de São João da Madeira e constitui um marco essencial para o conhecimento da evolução das relações laborais, da indústria do calçado e da resistência ao Estado Novo em Portugal.
Imagem: Arquivo do Museu do Calçado.